Projeto Memórias

Recolha e registo de manifestações do Património Cultural Imaterial

Texto de Maria João Pina
Chefe da Divisão de Cultura e Desporto
Diretora do Museu Municipal de Ferreira do Alentejo

«O Património histórico e cultural do Concelho de Ferreira do Alentejo integra um conjunto de bens, materiais e imateriais, que são fundamentais para a compreensão da evolução da comunidade, para a transmissão da sua memória e da sua identidade pelo que importa identificá-los, estudá-los, preservá-los e divulgá-los.

Seguindo esta ordem de ideias, a Câmara Municipal de Ferreira, através do seu Museu Municipal e a bem da preservação da memória coletiva, numa aceção que abranja todas as formas de organização e de representação do Concelho, tem vindo a investir no inventário, estudo, promoção, divulgação e salvaguarda do seu Património Cultural.

No que ao Património Cultural material imóvel diz respeito, foram identificados, inventariados, estudados e classificados como imóveis de interesse público e de interesse municipal todos aqueles imóveis que se revestem de valor cultural de importância nacional ou local. Alguns destes imóveis foram alvo de programas de valorização e salvaguarda, tendo-lhe sido devolvida uma função no meio local, caso exemplificativo será o do próprio edifício sede do Museu Municipal ou do núcleo de arte sacra, que possibilitou a recuperação da igreja da Misericórdia de Ferreira e de parte do seu antigo hospital.

Tem-se, igualmente assegurado a recolha, a identificação, o inventário, o estudo e a divulgação de bens móveis, materiais e imateriais, integrados nas coleções do Museu Municipal e partilhados com a comunidade através das ações, projetos educativos e das diferentes salas expositivas que integram os núcleos do museu: núcleo sede, núcleo de arte sacra, Arquivo Histórico, galeria de arte, espaço artesão e núcleo arqueológico do Monte da Chaminé.

No caso particular do Património Cultural imaterial, voltámos a retomar o “projeto Memórias”, iniciado em 1997, e que consiste na coleta, identificação, valorização e divulgação das memórias e “saber fazer” associados quer aos objetos, quer aos lugares, quer aos edifícios, quer às pessoas. Estas histórias, passadas de geração em geração, através da memória e do “saber fazer” dos mais velhos, são elemento fulcral para a compreensão da nossa História. Cientes desta importância, foi constituída uma equipa que fará coletas relacionadas com as diferentes manifestações do Património Cultural Imaterial, mais concretamente, com a literatura oral tradicional, com a medicina tradicional, com as artes e ofícios tradicionais, com a gastronomia tradicional, com as historias de vida e com as memórias dos lugares ou edifícios.

Paralelamente, serão instruídos alguns processos, tais como a arte de fazer cestos, a arte do ferro forjado, a arte do latoeiro ou a arte da pintura tradicional alentejana para serem inscritos no Inventário nacional. Exposições, palestras, ações de sensibilização serão empreendidas junto da comunidade local-publico sénior e comunidade escolar- não só como forma de motivar as pessoas e de as integrar no processo de recolha e inventário mas também por forma a dar- lhes a conhecer o seu património cultural. Este processo que agora retomamos vai-nos ainda auxiliar na programação museológica que estamos a fazer para a apresentação pública de mais um núcleo do museu municipal: o núcleo da casa do cante. A sedear numa antiga taberna local, a adega do “Lelito”, este espaço evocará as memórias de um concelho onde, em tempos, houve uma grande produção vinícola e onde existiam inúmeras tabernas, onde, espontaneamente se propiciava o “cante” após um longo dia de trabalho. Este espaço de memórias servirá ainda para evocar e dar a conhecer a gastronomia tradicional, e, finalmente, servirá para evocar as memórias, os ”saberes fazer”, a história da adega e da família que aqui trabalhou.»

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No âmbito deste projeto e em colaboração com a Biblioteca Municipal de Ferreira do Alentejo, Armanda Salgado, membro da equipa da Cátedra UNESCO, é responsável por acompanhar o processo de recolha, dirigido para as expressões orais (contos tradicionais e poesias populares).
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Legenda da imagem: A arte da esteiraria em Odivelas, Concelho de Ferreira do Alentejo. Pormenor do trabalho no tear na feitura da esteira. Foto – A. Cunha

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